Antonnia Téppida, depois de esfregar a pele sob a água escaldante do chuveiro aberto no máximo (de água a de gás), ainda voltou lá e esfregou de novo e depois outra vez. Já não estava mais ali o odor e a sensação do toque ao mesmo tempo brutal e visguento, invasivo e pegajoso. Mas Antonnia Téppida não conseguia esfregar as lembranças, então esfregava a pele.


O nome dele era Bóris. O dela era Casemira. Amigos de longa data, ela sempre o chamara pe-lo apelido: Grandão. Ele, da mesma forma: Mirinha era como a chamava. Até que tiveram uma dis-cussão séria, ela magoou-se com ele e só o tratava por Bóris. Ele achava aquilo ridículo e, por sua vez, nunca dizia nenhum nome dela quando se falavam.


A chuva sabe que não gostam dela. Não agora, depois de três dias chovendo sempre. Mas a chuva não se importa e continua caindo como se fosse ontem.


- Você está me cantando!
- Estou?
- Você está me fazendo elogios que não mereço.
- Isso é te cantar? Talvez eu esteja apenas sendo infantil.


- Mas isso não é normal!
- E o que você sabe de normalidade?
- Ora, normal é...
- Normal é apenas o que não te assusta, não passa disto. É apenas aquilo que não perturba tua visão de mundo.

(Rogério Camargo)

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