Dueto da tarde (XVIII)

Agora pela manhã caem, sedentos pelo encaixe, dilúvios de palavras desencaixadas e irritadiças à procura da cola da inspiração.
Ontem pela tarde elas levantavam-se, olhava o mundo bem fundo nos olhos e diziam não ter medo de nada, nem da alvorada.
Agora na onda do vento a inspiração e as palavras atravessam os campos de trigo e beijam os que lá trabalham; o tempo seria amigo ou apenas conhecido das palavras?
As palavras, desencaixadas, também se perguntam: que amizade temos com o tempo, que nos esquece e não nos esquece?
Às vezes todos se entendem e nascem magníficos filhos, nascem arte e desafio, amor concreto ou por um fio, tudo se agarrando no fio da meada.
Agora pela manhã, ontem pela tarde, o tempo todo pela noite das estrelas, pela sanha de entendê-las, sem medo de lembrar ou de esquecê-las
Nas arritmias do tempo e da criação segue o menino poeta, nesse momento vai criando o novo ou recriando o velho, dando luz ao sombrio, florindo as alvoradas e ajeitando as placas de mão e contramão.
Há sentido no sentido, nos cinco sentidos, nos duzentos sentidos dos cinco sentidos sentindo... muito.
Nasce na compreensão do momento o sentimento de poder, o sentir-se um Deus, o paladar apurado e revigorado de ver além, e ver, ver... muito.
Agora pela manhã, ontem pela tarde, o tempo todo pela noite das estrelas ver, ver muito. É o que dá sentido.

Rogério Camargo e André Anlub®
(20/12/14)


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