Dueto da tarde (XXI)


Dueto da tarde (XXI)

A luz que está faltando chega-lhe ao coração apertado como uma obrigação descumprida.
As pernas compridas, desenhadas, o cabelo bem feito e um batom vermelho
Que reflete, acanhado, o vermelho dos olhos que choraram tudo e ainda choram
É a ausência de um enigma, pois tão evidente é sua própria vida e sua tormentosa história.
Menina esquecendo de ser menina porque menina já não pode ser,
Já carrega o pesado fardo, como se vestisse a farda de um general qualquer
No front de uma guerra que emperra, que enterra os sonhos e as ilusões entre os frêmitos da carne.
Tão largos e fartos os prantos; tão logo o raiar de um dia na cama de um desconhecido, no trilho que não finda; tão longe o horizonte perdido.
Se algum dia houve um horizonte achado, perdeu-se na obrigação criada pela obrigação malcriada.
É o fato exposto que mesmo com evidentes transtornos vai-se empurrando a vida com o seu amargo gosto.
Seus passos escusos com o coração escuro na calçada escura da noite escura vão empurrando a vida até mais ali
E ali o pensamento estaciona, pois na real telona ela está com a barriga vazia, problemas no ar, contas a pagar e um cliente em mira para resolver o seu dia.

Rogério Camargo e André Anlub®

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