Alguns minicontos:

- Eu tinha uma coisa pra te dizer.
- Eu também tinha.
- O que é?
- O que “era”. Pois eu disse que “tinha”. E você?
- Bem, eu também disse que tinha...


Bazingo queria entrar para a política. É a maior mamata, dizia. Não faz nada, ganha bem e ainda tem uns por-fora que dão uma grana violenta, cara! E como é que você pretende chegar lá, perguntavam os amigos. Bazingo ainda não sabia. Mas o prêmio final era tão bom que, aparentemente, ele estava disposto a qualquer coisa para conquistá-lo. Por via das dúvidas, sua mulher passou todos os bens do casal para o nome dela e dos filhos.


A mãe dela era gorda, o pai também, seus avós eram gordos e, até onde ela sabia, seus bisavós de magros não tinham nada. Zubika, no entanto, era um fiapo de gente, uma sílfide. “O senhor tem certeza?”, disse ela ao endocrinologista depois que ele garantiu que ela era normal.


Colocar as coisas em seus devidos lugares. Era tudo que Reginuvo queria. Tudo que Reginuvo não queria era continuar com as coisas fora de seus lugares. Mas teria que chegar a cada uma delas. E teria que agir sobre cada uma delas. Reginuvo tinha muito trabalho a fazer.


Zepecka odeia perder tempo, oportunidades, tudo que dê a impressão de que poderia ter feito e não fez. Então Zepecka não se deixa em paz.


O Sim marcou encontro com o Não já sabendo o que ouviria. Mas como vivia de esperanças, chegou como se tudo fosse mesmo possível.

O apartamento tinha um banheiro só. Moravam seis pessoas ali. O sonho de todas elas era ter um banheiro exclusivo e poder passar lá dentro o tempo que quisessem, até morar lá dentro se também quisessem. Nenhuma delas conseguiu realizá-lo, todas tiveram que se conformar com horários, pressa e pressão.


O cliente chegou pedindo o impossível.
- Mas está aqui no anúncio!
- Isto é apenas um anúncio, senhor.
- Como assim, apenas? Quer dizer que não é para acreditar nele?
- Não ao pé da letra. O senhor com certeza sabe o que é uma metáfora.
- Mais ou menos. Mas com certeza eu sei o que é uma enganação.


Cassandra tem duas bocas. Com uma boca ela morde, com outra boca morde também. Cassandra poderia explicar por que, mas detesta perder tempo falando.

(Rogério Camargo)

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