Dueto da tarde (XLIX)

      Pastel no mercado municipal (SP)

Dueto da tarde (XLIX) 

O segredo foi revelado, o destino estava traçado, de nada adiantariam as imagens de barro nem as inúmeras velas acessas em nome do sem nome ou até do Nominado. Havia muita coisa por trás do que há por trás e isso não faz nascer o medo; pois isso, aquilo ou até mesmo o inexistente não se desfaz num estalar de dedos.
O segredo foi relevado e com ele a fotografia da consciência, num preto e branco escarpado, como um silêncio do submundo, e o peso evidenciado na visão de um tridente no fundo.
“Não tenho nada com isso”, disse o compromisso com o sumiço. Enguiço logo resolvido pela presença, nada ligeira, da paixão passageira, que andava feito bicho preguiça.
Por lento que fosse, por recalcitrante que fosse, com o tridente ao fundo que fosse, o segredo desanuviou-se. 
Agora sim, com o estalar de dedos, os olhos se abriram, as dores sumiram e surgiram os sorridentes; o verdadeiro valor passou a ter valor e o calor fundiu todos os ouros, pratas, espadas, facas e tridentes.
Três dentes e muitas bocas. Todas a gritar que conheciam o segredo. Todas a querer mascá-lo com os dentes poucos; três sementes, somente três, foram plantadas para garantir o futuro:
O ontem, o hoje e o amanhã. Algum desespero queria coisas outras, uma quarta dimensão. E o segredo, revelado, apenas aguardava.

Rogério Camargo e André Anlub
(29/1/15)


Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer