Dueto da tarde (XLVI)



Dueto da tarde (XLVI)

Esperando um grande progresso, encontrou um retrocesso e perguntou: O que faço com este sucesso?
Era assombrosamente descabelado, algo assim como o inferno congelado e um rato audacioso.
Cauteloso, foi palpando aquela superfície viscosa, sensação de carne esponjosa, boca de espingarda se fazendo de dengosa.
Nesse meio tempo inteiro, já havia o planejo desvairado do que seria feito com tal coisa; mas nada saiu como planejado.
A vida não é o que esperamos da vida. Lição carpida em muita despedida de ilusões grandes.
Mas ele abraçou a causa, tratou de guardar na calça, pois se cansou de prestar contas à sua consciência.
Cansaço inútil: ela estaria sempre disposta a cobrar. Mostrou-lhe a carteira vazia, entretanto, e partiu sem espanto para outra. Quem era a outra? O que era a outra?
Seus pensamentos se perderam numa avenida oca, que nem eco fazia; entre tantos temores, ali, na boemia, o seu olhar agora só a via... 
Sim, só havia vê-la. Estava ali, inconteste. Esperando um retrocesso, encontrou este sucesso e perguntou: O que faço com o progresso?
Mas já sabia a resposta.

Rogério Camargo e André Anlub 
(26/1/15)

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