Dueto da tarde (XXXI)




Deixei um pedaço de mim naquela última esquina; aquela do ipê amarelo.
Este pedaço procura florir toda primavera, mas as lembranças do outono persistem.
Costumo me despedaçar com prazer, e arriscar: às vezes é áspero – às vezes terno.
Levo comigo o gosto do amargo doce e o gosto do doce amargo. Deixo nas esquinas o que é de deixar nas esquinas.
Já se foram amores eternos; já ficaram amores passageiros; deixo o guerreiro numa rua deserta
A meditar sobre ruas desertas habitadas por ipês amarelos. Ele não me conta muito de suas conclusões.
Ele faz ações sem muito pensar; ações de coragem e bondade, de igualdade e de paz; de guerra consigo mesmo e de guerra com quem mais houver; de silêncios e de tumultos; de lógicas e absurdos; tudo no mundo reservado às minhas situações.
Eu sou meu ipê amarelo de muitas cores. Eu sou minha esquina em linha reta.
Sou aquarela em amores; sou preto em branco nas dores e no viver, sentinela voluntária do que se passa e do não passará, porque ipês e esquinas passam, enquanto duram para sempre.

Rogério Camargo e André Anlub®
(9/1/15)

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