ALGUNS MINICONTOS

A carta que Perôndio escreveu avisando Parquínia do que poderia acontecer chegou dois anos atrasada. Parquínia foi obrigada a reconhecer duas coisas, porém. Uma, surpreendente: ele acertou quase tudo. Outra, deprimente: ela não teria seguido nenhum dos conselhos mesmo que a carta chegasse em tempo. Isso a deixou pensativa, pelo menos.


Ninguém chamava Júlio João de bonito. Júlio João era bonito. Mas não se lembrava de terem-no chamado assim uma vez que fosse. Um dia perguntou a sua amiga Irausa o que ela achava disso. Irausa primeiro pensou que ele estivesse brincando. Não estava. Depois pensou que talvez fosse uma armadilha. Não era. Era mesmo uma angústia. Que aumentou quando Irausa foi embora sem ter dito nada.


Há tanta coisa nas muitas coisas que as inexistências ficam muito receosas de começarem a existir.

- Mãe, tem uma estrela que quer falar comigo.
- É mesmo, meu bem? Sobre o que?
- Ela não disse ainda. Mas acho que está nervosa, coitadinha, a luz dela não para de tremer...


Tudo que podia ser feito por Genofelsa já tinha sido. Agora restava esperar que Genofelsa entendesse que só dependia dela transformar tudo o que fora feito em uma situação onde ela não precisasse de mais nada.


- Vô, por que é que a mãe disse pro pai “deixa estar, jacaré, tua lagoa há de secar”?
- Tá chovendo, seu pai deve ter entrado em casa com os pés molhados.
- Ah, vô, não brinca, eu quero mesmo saber!
- Tá. É uma expressão antiga. Funciona como um aviso de que a pessoa pode vir a perder algumas vantagens ou privilégios.
- Hum. Será que o pai vai ter que dormir no sofá?
- Se estiver com os pés molhados, talvez.


O muro era muito alto. Trolluppa cresceu imaginando que um dia teria condições de saltá-lo. Empenhou-se para conseguir isso. Conseguiu. Seu problema passou a ser o retorno, depois de conseguir. Porque do outro lado o muro era ainda mais alto.


O comodismo:
- Deixa como está!
A revolta:
- Muda tudo!
A sensatez:
- Como mudar tudo?


Queria viver uma experiência fora do tempo. E não parava de olhar o relógio, para ver se já estava na hora.


- Se pudesses escolher um lugar para morar, onde seria?
- Perto de mim. Detesto morar longe de mim.


Clápilo queria levar Clatina a viver um sonho. Clatina não queria viver um sonho. Mas todos querem viver um sonho, argumentava Clápilo. Então você pode pegar qualquer um destes todos, eu não vou lhe fazer falta, encerrava Clatina.



Era uma coisa boa e era também uma coisa ruim. Mas enquanto era uma coisa ruim a coisa boa não podia ser totalmente boa, porque ficava com pena.

ROGÉRIO CAMARGO 

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