Dueto da tarde (LII)



Dueto da tarde (LII)

Havia uma palavra mais triste entre as palavras mais alegres, uma sombra bem disfarçada na plena luz do sol, camuflada pela timidez, pelo acanhamento e pela vergonha, de expressão minúscula, se moldava em versos curtos e se escrevia no lado negro da lua.
Leitura difícil: fácil era ler as palavras que saltitavam de excitação, que diziam olha pra mim, olha pra mim!
Olhos banais tendem a caçar leituras comuns, simplistas; olhos atrevidos vão além... buscam teores implícitos, metáforas e alquimias.
São olhos com dedos delicados na ponta dos cílios, são olhos com radares sutis, que viajam de carona nas asas das reticências e capturam vírgulas em outros confins.
Seguem a trilha que a intuição abre na mata densa do encabulamento e chegam a clareiras insuspeitas, vestindo as vestes de livros antigos, bebendo copos de vinho de letras, fazendo do conhecimento alimento que a palavra mais triste, ainda tímida mas já desnuda, berra com todas as forças, mesmo que dentro das mentes, aos quatro, talvez até cinco ventos.

Rogério Camargo e André Anlub
(1/2/15)

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