Dueto da tarde (LVI)



Um sol muito especial dizia a uma lua tímida que não há nada como ser fria, pois acalora corações apaixonados, poéticos e ilumina as noites sombrias.
A lua não deixou de ser tímida com isso, mas começou a olhar os amarelos do sol com outros olhos; o flerte era incrível, visível e intenso: a lua tomou o sol como inspiração e começou a pintá-lo em suas telas, tornou-se tema de seus poemas.
Ele olhava para aquilo como um pai olha uma filha. A terra já tinha feito a mesma coisa, eternidades antes – infinidades depois; as intimidades eram para estar guardadas para caso aconteça um imprevisto, um dilema.
A lua não sabia disso. A lua só sabia dos calores que sentia em sua fantasia; ela queria mais aproximação, mais luz, imaginava andarem juntos pelo parque universal, beijos descontrolados e a missão de levarem uma nova lua e um novo sol a outras galáxias.
O sol olhava para isso como quem acompanha uma criança no playground.
A lua, mesmo tímida, queria mais... arregaçou as mangas e tentou com todas as forças, quase com jeito mórbido, sair de sua órbita.
Era uma menininha na ponta dos pés, querendo apanhar o avião que passava lá em cima. Ou querendo apanhar... a lua.
Era também um menininho de mãos dadas com ela, assoprando para afastar as nuvens, tentando sentir mais o sol num dia frio de inverno.

Rogério Camargo e André Anlub

(5/2/15)

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