Dueto da tarde (LVII)



Dueto da tarde (LVII)

O mato o deixou contente, pois finalmente cresceu mais verde no seu quintal.
Deixaria assim por enquanto. Que as urtigas e carrapichos fizessem a sua festa.
A grama do vizinho dantes o incomodava, pois era mais verde, mais fofa e estava sempre aplainada.
O vizinho perdia muitas horas trabalhando na sua grama. Ele aplicava muito tempo sonhando com a grama que não tinha.
Era uma espécie de alquimia, uma estranha fantasia, quiçá um vício insano que o dominava.
Alguns caçam borboletas. Outros veem filmes pornô. Ele sonhava com uma grama melhor que a do vizinho.
Já havia se separado de sua mulher por essa causa; já havia deixado seu trabalho como escritor; já havia desmarcado sua visita ao Redentor e por sorte nunca precisou ir a um oculista.
Mas hoje o sol brilhou mais forte no céu nublado de sua vida: o mato em seu quintal estava mais verde que a grama do outro lado.
Então convidou sua ex para um cinema, remarcou a visita ao Redentor, desempacotou uma resma de papel, pôs tinta na caneta e antes de começar qualquer coisa foi para o chuveiro cantando salsas cubanas. 
Perfumou-se com o melhor talco Lever que ainda tinha em casa, armou uma cadeira de praia no passeio da entrada, esticou as pernas magras e olhou fixamente/comumente/detalhadamente para a grama do vizinho.
Ninguém saberia qualificar o seu sorriso. Nem quando ele pegou no sono, deixando cair ao chão a Parker51 e as folhas acetinadas especiais para escrever esboços de romances.

Rogério Camargo e André Anlub
(6/2/15)

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