Dueto da tarde (LXI)



Dueto da tarde (LXI)

O sol inclemente fazia a pele gritar por sombra e a boca exigir água.
Na areia cálida, ilusões: cálices de um Château gelado e banhos de chuvas de granizo.
Na calçada escaldante, os pés sonhando com lagoas e os olhos mirando miragens impossíveis.
O mundo gira com o sol acoplado; seu corpo balança e parece flutuar no ar quente, entrando quase em autocombustão.
Os pulmões querem o que os pulmões não podem ter. Mas os pulmões querem, os pulmões querem.
Mente e corpo definhando, grito seco na garganta, olhos vermelhos em braseiros e uma única probabilidade de sair ileso:
Não estar ali. Mas ele está ali. Ele e seu corpo gritando para não ficar. Ele e o desafio à lógica da sobrevivência. 
Sim, ele está em evidência, pois talvez seja um insano andando perdido no destino; não, não está em um manicômio, mas nem ele sabe ao certo; só se sabe que de perto todos são loucos indefesos. 
Não está num hospício mas é um sacrifício viver neste sol louco. Ergue a voz num canto esquisito, vendendo seus picolés, e dentro de um som sustenido o sol se torna amigo, sócio fiel.

Rogério Camargo e André Anlub
(10/2/15)

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