Dueto da tarde (LXIV)



Dueto da tarde (LXIV)

Com seus olhos precisos e nada discretos fotografou as belas pernas que passavam na calçada.
O álbum que tinha cabeça inquietou-se com a chegada de mais um exemplar.
Fazia cálculos milimétricos, dísticos, anatomia disso, daquilo, era de viver, era de matar – olho clínico e olho indisciplinar.
A folha em branco da sua imaginação logo se coloriu de formas nervosas, via-se novamente a luz na sua grande eterna cabulosa casulosa caverna.
Alguns estertores se pacificaram, algumas placidezes estertoraram, houve uma alucinação sóbria seguida de uma prece ébria.
Se as belas pernas desconfiassem, desconfiariam muito: há olhos de demais para o que elas menos querem; há olhos de menos para o que elas mais desejam.
E assim deixam o ensejo: querem um afago, querem uma caminhada na praia, querem uma meia-calça, querem duas calças Levis, querem que as levem para qualquer lugar.
Mas os olhos que fotografam nada lhes dão e tudo lhes tiram, na sua fantasia de possuir, de prender eternamente; pode parecer incoerente (e é), mas são olhos gulosos, talvez insaciáveis, talvez perfeccionistas.
A imagem passa, finalmente, e a imagem fica, finalmente. As pernas vão, a prisão da imagem não. E na galeria mental insuficiente tudo acontece enquanto nada acontece com o que já foi.

Rogério Camargo e André Anlub
(13/2/15)

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