Dueto da tarde (LXV)



Dueto da tarde (LXV)

As cores fundas da noite aguardam que o sol aqueça alguns amarelos;
Opções de tons à mercê do pincel; mesclados de vermelho e laranja acendendo o sorriso de Van Gogh no céu.
A sombra aguarda o momento de dançar a dança dos fogos impossíveis; o verniz espera sua vez, inquieto, enquanto o matiz sobe ao quarto com a pálida e cálida meretriz.
Ela não se oferece facilmente. Ela tem seu preço em luzes da manhã que ainda não chegou, pois muitas vezes cobra caro: querendo um eclipse que cale a boca do sol.
O sol fala muito e alto, com sua boca de incêndios; a lua é educada, silente, e mesmo com boca mutante, nem por um instante aumenta o tom de voz.
As cores fundas da noite conhecem a lua como um filho conhece sua mãe. E aguardam os amarelos do sol como quem espera o pai voltar do trabalho; sabem que os amarelos se perdem nos atalhos das cores, nos rubores dos primeiros raios, passeiam pelo ateliê do artista, beijam o cume do Everest, e sem que se apressem chegam aos olhos de quem admira.

Rogério Camargo e André Anlub
(14/2/15)

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