Dueto da tarde (LXVII)



Dueto da tarde (LXVII)

Ainda não nasceu o dia mas a noite já se prepara. 
Um tailer transparente sobre a tez, um chapéu chique de praia e uma saia rendada de puro algodão egípcio. 
Não há nada que ela não saiba e não há nada que ela conheça. Tudo é velho novo. Tudo é novo velho. 
A noite foi morar uns tempos na Noruega, lá sentia-se mais ativa, participativa, mais mulher pura – dona de casa e da rua. Morou lá por doze horas. Voltou com a cabeça cheia de ideias que o dia ouviu com muita paciência; e na inocência de menina velha, quis transformar o mundo todo, uma revolução quase guerra.
Poucos entenderam. As manhãs não entenderam. E continuaram a chamar todas as cores da alvorada em seu favor. 
Foi um “auê”: nuvens em frenesi louco faziam formas obscenas; os mares ficaram revoltos e descontaram sua raiva nas pedras e mariscos.
Todos queriam e não queriam. Todos queriam sem saber o que. Mas queriam firme, queriam forte.
E foi assim que o sul se uniu ao norte, e jogaram com a vida e com a própria sorte boicotando a louca lua atrevida.
Uma união de doze horas também. Tempo de outra estadia na Noruega. Tempo de meia volta ao mundo. Tempo de um temporal de cores ambíguas.

Rogério Camargo e André Anlub
(16/2/15)

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