Dueto da tarde (LXX)



Dueto da tarde (LXX)

Dois olhos me olham com um olhar brando, mas inquietante, olhar de dúvidas e expectativa.
Na sombra deles eu me preparo para não ser esquecido e lanço um grito para o eco surdo.
Radicalizo meu singelo espaço cósmico doando meus planetas e estrelas aos olhos alheios.
Abro o guarda-chuva da angústia sob o sol da melancolia e visualizo ao vulcão da ineficácia derretendo as pedras do alicerce.
Na hora, através dos olhos, chegará minha máxima e me lançará o convite à sorte do sorriso mais largo, a fala mais forte e alinhará toda minha galáxia.
Na hora. Estou sem hora. Sou senhor das horas mortas que ressuscitam na práxis, faço plástica na cara da morte, afio a foice e o cabelo eu lavo, pinto e faço trança, fazendo-a parecer novamente criança.
Dois olhos me seguem nesta dança. Diretor de cena coçando a pança, quebrando a balança com o peso da sua exigência. Isto cansa.
A observação vai além – se dita à regra: rega-se a ruga e irrigam-se os olhos com o pranto mais sincero.
São dois olhos e têm a sabedoria dos trilhões que já choraram a condição humana. Deles ela verte em água pura.

Rogério Camargo e André Anlub
(19/2/15)

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