Dueto da tarde (LXXIV)



Dueto da tarde (LXXIV)

O mal acordou criativo: fofocou, intrigou, polemizou, foi racista, preconceituoso e depois pediu desculpas. Pouco se pôde fazer com tudo que ele estava fazendo, contudo.
Nada mais é absurdo – basta pedir perdão; o bem ficou chateado e assume que perdoar é um dom, mas só quando provém do coração.
O coração provê, o coração vê pró: pró-libertação, pró-alívio, progresso.
Ao respeito o mal entrega o despeito, ao altruísmo a cobiça; não há preguiça no arremate de seus afazeres.
O mal trabalha, o coração também. O coração trabalha mal se desconsidera o mal que o faz trabalhar tanto.
Há ressalvas salvas: um sempre é vivo, o outro necessita cultivo; um faz o amado, o outro aversão; um põe fogo no circo, o outro provoca ovação; um vive sem o outro, já o outro não.
E enquanto viverem sem viver a completude absoluta, onde ninguém é nenhum e todos são tudo, discutirão espaços que não lhes pertencem.
Complacente e nem sempre sensato, sucinto, preciso, compreendido e domado é o coração: se der asas – alado; se der cárcere – convulsão.
O mal tenta o que os males tentam. O coração faz o que os corações fazem. E a vida, soberana, espera de um o que não espera de outro.

Rogério Camargo e André Anlub
(23/2/15)

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