Dueto da tarde (LXXV)



Dueto da tarde (LXXV)

As ondas do meu mar oscilam como cabelos ao vento, como os conceitos em temperos que saciam o apetite.
Navego como quem se entregou e não quer saber de seu destino, como navegador menino, sem horizonte e ilha, sem ouro e tesouro, sem norte e bússola, sem regra e família.
Talvez me afogue em minha pretensão desabrida, mas talvez também cure a ferida do medo que espreita nos vãos da solidão.
Pouco sei até do que pouco sei. As ondas do meu mar não toleram me ver sabendo, afogam rapidamente qualquer entendimento; sim, sei, às vezes são ondas egoístas mas que hoje amanheceram senhoras esposas, mais calmas – mais mansas, mas também propensas a tubarões e outros predadores.
Oscilam como cabelos ao vento. Não, como cabelos na água. Na água do meu mar inconstante, na maré variante que me lava – me leva – me eleva, com ou sem solidão, ao sonho incessante, delirante e salutar de viajar nesse mar e não chegar jamais às terras dos homens. 

Rogério Camargo e André Anlub
(24/2/15)

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