Dueto da tarde (LXXVI)



Dueto da tarde (LXXVI)

Rasgou seus conceitos, queimou ambições, fez orações e desfez julgamentos; agora pode ou não ser a opção sensata: 
Continuar seu caminho com a sensação de barra limpa. Não se consegue uma sensação de barra limpa deixando de lado o retoque, a assinatura, a moldura e o último enfoque.
Penetrou lentamente no quarto escuro, que conhecia de olhos fechados, mas receava porque estava escuro. 
Sentiu uma brisa morna e adocicada, cheiro leve de incenso de âmbar; ouviu música com um coro e o choro de uma criança.
Seria ele a criança chorando? Talvez. Um passo e outro mais na direção da falta de direção e talvez encontrasse a criança. Queria encontrar a criança?
Lembrou-se de seus deprimidos problemas, e lembrou-se que deveria tê-los esquecido; mas mesmo assim, mesmo assombrado, seguiu acautelado.
Problemas não se esquecem, lembrou. Problemas se resolvem. Esquecimento não é solução, é adiamento.
Encontrou o menino que o olhou firmemente e parou de chorar e sorriu; ele assustado implodiu... pois ali, à sua frente, era o seu pai quando guri.
Encontrar é encontrar. Estar perdido e encontrar é deixar de estar perdido.

Rogério Camargo e André Anlub
(25/2/15)

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