Dueto da tarde (CII)



Dueto da tarde (CII)

Fala pelos cotovelos, reclama pelos cotovelos, quase não usa os cotovelos para dar cotoveladas ou salutarmente apoiar na janela – paquerar ou ver o sol nascer.
Acotovela-se “linguando” e “linguando” passa o tempo que os cotovelos passariam se apoiando.
Cotovelos nada selvagens, todos pamonhas. Avermelhados de tanto descanso, quiçá de vergonha.
Pensa em fazer uma tatuagem em cada cotovelo: duas bocas.
Há planos de aposentar a própria boca, pois para os queijos há o regime e para os beijos se auto restringe.
Se não der certo, vai falar e reclamar e repetir que tem razão até que os cotovelos criem joelhos.
São cotovelos carentes de desvelos; até são como aço, mas em pedaços. Acabarão parecendo pinturas de uma fase de Picasso.
Por enquanto, enquanto falam, têm de si a ideia posta sobre si: é necessário - e se é necessário é preciso.
Pensam e discutem (um com o outro) e falam muito e se iludem. Não repararam que são apenas cotovelos (metade do braço) sem rédeas sem rodeios, são só meios. 
Cotovelos com conotação farpada não está com nada; cotovelos tem que ser como novelos de lã, irem ao vento sem ferir quem passa.
Quem fala pelos cotovelos deve mais respeito aos cotovelos: seus e alheios. Alheio a isso, quem fala pelos cotovelos fala.

Rogério Camargo e André Anlub
(23/3/15)

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