Dueto da tarde (CVI)



Dueto da tarde (CVI)

Na batalha pessoal, um soldado é o exército, o exército é um soldado.
O repente só reflete os aflitos que na linha de frente estão armados até os dentes.
As armas nunca são barões assinalados. Podem ser assassinados, no entanto.
O campo, imaturo e mal iluminado, reflete o pranto seco e inacabado de esperança.
As trincheiras arreganham as bocas, exalam odores de arcadas corroídas e refluxos corrosivos.
Os explosivos são rancores prensados em corações apertados e sombrios... quase todos pouco usados.
A música dos canhões não cessa jamais e quanto mais música é menos música pode ser.
Feridas expostas e cabeças penduradas para enfeiar possíveis belas alvoradas.
Na batalha pessoal, possíveis belas alvoradas são uma piada amarga que os combatentes contam uns aos outros enquanto recarregam os fuzis.
Faces hostis – hóstias de sangue –, mangues de corpos em foscos lamentos, em orações apáticas, em mentes insanas.
Quando o clarim do armistício ecoa lá longe, é lá longe que ecoa o clarim do armistício.
É fatídico, é libertário, é libertino: se é o fim da batalha, é o sepultamento dos que foram e vem o nó à nódoa como uma navalha amolada nas mentes e corações dos que ficam.

Rogério Camargo e André Anlub
(27/3/15)

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