Dueto da tarde (LXXX)



Dueto da tarde (LXXX)

A lembrança mais querida de uma infância muito feliz bateu à porta,
Tempos de rodas de ciranda, rodas de bicicletas, rodas de leitura e a vida rodou na estrada.
A porta abre para a lembrança e para o que a lembrança não tem nem pode ter:
Rebobinar a fita e viver tudo novamente – claramente – calmamente – em HD.
Pela porta aberta o que entra, com pantufas de melancolia e passos nostálgicos vai em busca de um abraço e acaba achando a ironia, os braços ocupados no futuro, segurando a nova vida.
Suspira, abre a geladeira, pega uma cerveja, pensa em guaraná, em coca light, em fanta uva, dá um sorriso torto e deixa cair uma faca dos dentes. Faca? Lembra-se de que não sabe como surgiu ali, de onde veio, não sabe seu nome, nem o início – o fim, nem ao certo o meio.
A faca quase atinge seu pé. Cai cravada rente. Não há nenhuma lembrança igual, nem parecida, entre as lembranças mais queridas de uma infância muito feliz.
A loucura sobe à mente e novamente a faca volta aos dentes; há controvérsia em seus pensamentos e há indiferença em seus esquecimentos. Sem saber o que fazer: ajoelha, reza, chora e sente.
Sente e ressente-se. Senta-se, levanta. Levanta, senta. Tenta outra coisa. Não consegue. Pensa em usar a faca para cortar os pulsos. Mas vê que ela pode ter outra utilidade:
Corta um peixe, tempera, acende o forno e espera... enquanto isso abraça sua criatividade, pois seja qual for sua idade, em seu sonho – sua mentira – sua verdade,  ela sempre impera.

Rogério Camargo e André Anlub
(1/3/15)

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