Dueto da tarde (LXXXIX)



Dueto da tarde (LXXXIX)

Há tempos não se sentia gente, real, verdadeiro; de sua boca saíam vocábulos de dispersos devaneios e de suas mãos malemolências em enleios.
Tudo muito viscoso. Tinha caído num barril de cola. Ou de gelatina. Ou de gelatina colante. Não conseguia ir adiante.
No seu mundo pegajoso ainda havia espaço para mais viscosidade. Bebeu um litro de vodca e saiu seco, sedento e suado peregrinando azoinado pelas zonas da sua cidade.
Caçando seus defeitos, não percebia o maior deles: não olhar para a direção correta. Linha reta para o abismo.
Mas ainda restava um otimismo: ser ele mesmo –, inimigo mais íntimo.
Não estava inventando a pólvora, embora usasse mal o canhão. Pé no chão era tudo de que precisava. Mas voava.
Subia geralmente longe e alto além das nuvens, e nas alturas achava seus defeitos. Ao descer, ao retornar esquecia que os encontrara e começava todo o ciclo novamente.
Isso até encontrar o amor de sua vida. Quando encontrou o amor de sua vida, continuou fazendo a mesma coisa – mas estava amando.
Agora podia voar pousado e pausado, organizar-se com a sobra, dividindo a árdua empreitada de cavar e depois adornar sua gélida cova.

Rogerio Camargo e André Anlub
(10/3/15)

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