Dueto da tarde (LXXXVI)



Dueto da tarde (LXXXVI)

Peso na cabeça. Vontade de dormir até depois de amanhã.
Peço aos Deuses que eu esqueça. Desapareça a imagem do desabotoar do seu sutiã.
As palavras transformadas em carne. A carne transformada em compromisso.
As lavas formadas na face, choro que transborda desprendido.
Uma história pra contar e, principalmente, uma história pra calar. Fundo.
Vejo-a num tudo, ouço-a num sempre. O amor desnudo e no cio que pode ter desfalecido de frio.
Vontade de dormir até depois de amanhã sob os cobertores de uma proteção mitológica. Não tem lógica. Mas tem peso.
Gravidade de paixão! todos temos uma. Existem algumas redondamente absurdas, e já outras idem! (mas vão dizer que não). Insano, mas zen.
A cabeça pesada reconhece. E amanhece com a colcha no chão, com o colchão encharcado, do lado errado, as unhas inquietas.
O corpo até tenta, mas não se move; só os olhos que observam as paredes pintadas como telas de Afremov.
É quando você vem e desabotoa não apenas o seu sutiã e não apenas em minha memória cheia de histórias; agora vagam reais, mãos e pernas, em vãos – em vai e vens, em sins e nãos, em falsos adágios, em densos estágios que nas paredes formavam pinturas de Caravaggio.

Rogerio Camargo e André Anlub
(7/3/15)

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