Dueto da tarde (LXXXVII)

No recinto o cheiro de café fresco no ar, a grade da cela carcomida pela ferrugem poderia estar pelo menos cromada, e minha pena a ser paga: dez anos. 
A liberdade poderia não ser este sonho perfurado de pesadelos que tento acalentar todas as noites e a paz de espírito poderia não ser esta guerra constante para não me envolver com guerras. 
É uma pena, pois todos os dias me pergunto se toda luta vale a pena; mas sei que a pena vence a espada.
Pelo menos quando a luta é no papel a pena vence a espada. E é para onde trago esta batalha diária, para ter chance de vencê-la.
Hoje faço uma linha do verso na linha de frente do prélio; sou um bom soldado e não durmo; os arqueiros estão a postos e as flechas, como pássaros insanos, voam sem rumo.
Melhor, lutaremos à sombra, dizem as minhas ingênuas esperanças. Dou-lhes asas como dou às minhas vigilâncias.
Amarrei meu novo livro em uma bela pipa, soltei-a por entre as grades e deixei o vento levá-la bem alto; fui dando bastante linha, e voam minhas linhas, linhas e linhas... depois soltei-a.
O livro novo que não escrevi ainda. O livro novo que talvez jamais escreva. Mas que é minha consolação única e completa nessa ausência de meta.
O cárcere incuba expectativa, fugindo de ser cárcere; o ego-centro faz nascer lassidão e languidez; e então a cova com grades é a residência, o lar, amargo lar.
Dez anos, dez séculos, dez minutos. Tudo é relativo se não for ralativo, se não ralar a dignidade indispensável para dispensar o que não seja dignidade e suportação.

Rogério Camargo e André Anlub
(8/3/15)

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