Dueto da tarde (XC)



Dueto da tarde (XC)

Era fácil perceber que estava errado. Mas era muito difícil perceber que estava errado.
Num não vai e fica da teimosia, na tatuagem da teimosia que teima em teimar que vai ficar.
A questão não era só questionar, a discussão não era só discutir, o debate não era só debater e o silêncio não era só calar a boca.
A pergunta rodopiava no furacão de seu mundo, e ao fundo dava para ver o esboço da resposta embaçado e em um imenso anagrama.
Indisposto a cambalhotas retóricas mas embaçado nas lentes da percepção objetiva, tirava a viola do saco e tocava.
No redemoinho as notas musicais subiam e giravam em projeções cônicas e iam desfazendo-o como mágica; depois caiam em chuvas tépidas de melodias harmônicas.
Era bonito. Mas ser bonito não é tudo. Como perceber que está errado não é tudo. Por isso ele só tocava, sem cantar.
A chuva por sua vez encharcou o solo e fez brotar célere uma grande árvore que a sua frente apresentou-lhe um fruto com a resposta escrita, novamente... mas dessa vez sem embaçado e anagrama.
Então, era fácil perceber que estava errado. E era difícil perceber que estava errado. Porque o fruto não se colheria sozinho.
Mas há um porém nos poréns: o fruto era verde aos seus olhos e gosto. Isso pôde perceber. Escolheu tocar a viola, voltar outro dia e colhê-lo maduro, ou mesmo podre no chão.

Rogério Camargo e André Anlub
(11/3/15)

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