Dueto da tarde (XCI)



Dueto da tarde (XCI)

“A mão abriu o portão e os olhos brilharam se ensopando de lágrimas...”. Essa foi a última linha do livro que lia.
Identificou-se com o texto. Era uma chegada com gosto de partida. Tudo se partira. Tudo não seria mais como devia ser.
Aquele amor foi-se há muitos verões tórridos, faz tempo e o calor ficou para trás. O que se carregou foi a conveniência, o que se alimentou foi mágoa.
Havia costurado seus abismos com linha frágil. O livro reabriu tudo. Era preciso por os pés na ferida, atravessá-la caminhando.
Reacendeu sua força, rescindiu sua forca; abriu com facão um clarão na brenha sombria e perigosa, colocou a mochila nas costas e se foi.
Antes de ir olhou bem se o livro ficava. Não queria relê-lo. No prelo tinha outro conteúdo: tudo que não tinha de si e precisava ter.
O livro encanecido de capa já socada e as páginas amareladas havia de tornar-se novo com a simples ausência do último leitor; será assim e vem sendo assim há séculos.
Ela queria ler-se. Atentamente. Então deixaria os livros em casa. Ela queria atravessar-se. Totalmente. Então deixaria a segurança em casa.
Na chaminé ainda escapava a fumaça quando a casa abandonada foi achada por um andarilho, um mendigo do mato, na procura de comida, água e abrigo.
Ele entrou, fartou-se, foi embora. Ela saiu, fartou-se, retornou. Rever-se em casa foi como reencontrar um velho livro bom.
“A mão fechou o portão e os olhos brilharam de felicidade, pois ia conhecer um novo mundo...”. Essa foi a primeira linha do novo livro que lia.
E o bom da leitura boa é que não teria fim: a vida é um livro o tempo todo e ela aprendera a ler o tempo todo.

Rogério Camargo e André Anlub
(12/3/15)

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