Dueto da tarde (XCIII)



Dueto da tarde (XCIII)

Nada prática essa noite antipática que deixou minha empatia aperreada.
Praticou uma teoria de profunda nostalgia e depois, um tanto hipócrita, lembrou-me o juramento de Hipócrates.
Ela passou morosamente com a acrobática insônia “churrasqueira”, rolando o corpo de um lado para o outro e os olhos no relógio da cabeceira.
Marcação de tempo num compasso de agonia. Lentidão provocada pela sofreguidão: anda, anda, anda! Para onde?
Com o sol nascendo nascem olheiras, banho gelado, café e pão.
O sol nascer é outra história, inacreditável no meio da noite, quando parece que nunca mais vai haver sol.
Queria pesadelos, mortos puxando meu pé, tempestades de neve, chuvas de granizo; queria até o guizo da cobra ou o grunhido do porco, tudo se dormisse um pouco.
Com o sol nascendo, morrem os mortos que a noite não enterra, acendem-se luzes que a noite desconhece. 
A vida outra vez brota bela e pede o abrir das janelas não se importando com os fantasmas notívagos.
Janelas abertas, fantasmas livres para voar. E voam. Pena que não voltem só para contar suas aventuras quando a noite cai e as janelas fecham.
Tudo prático nesse dia fantástico que deixa minha empatia entusiasmada.
Entrego ao coração elástico o que há de plástico no que parece tão de aço no cansaço e, barba feita, preparo a colheita.

Rogério Camargo e André Anlub
(14/3/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer