Dueto da tarde (XCIX)



Dueto da tarde (XCIX)

Nada versátil e deveras feroz era o algoz de todos os vinte personagens de seu livro; matou todos.
Quem sobrou para contar a história lambuzou-se na glória de não fazer parte dela. Esparrela muito comum.
Houve o incidente com tal sujeito que ele não quis que morresse no acidente. Pronto, estava feito: foi um sonho.
Rigidez cadavérica até para sonhar. Mais ainda para transformar o sonho em literatura. Tortura autoimposta.
Em suas histórias morrem os bandidos, morrem os mocinhos; as cidades ficam completamente desertas e o narrador acaba frustrado falando sozinho.
Fala sozinho e não tem como fazer um diário. Nem como enviar cartas para si mesmo. Uma pena. Ele gostaria de enviar cartas para si mesmo.
Vê-se, e é, um bem-conceituado homicida sangrento, um carrasco literário que vende mortes às mentes sedentas.
Algumas morrem junto, na ausência de vida disso tudo. Outras, contudo, fazem de tudo para viver.
Certa vez pensou em escrever em primeira pessoa, se incluir no novo romance e consequentemente morrer no final.
Adiou o projeto, projetando-se para um futuro em que não precisaria da ficção para fixar-se na morte que já carregava.

Rogério Camargo e André Anlub
(20/3/15)

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