Dueto da tarde (XCVIII)



Dueto da tarde (XCVIII)

A grama teimosa cava espaço entre as lajes de concreto, adornando o seu cinza sem graça e quebrando a dureza frígida.
Seus desenhos despretensiosos poderiam inspirar a pretensão mais rígida.
A joaninha escala a grande muralha só para lhe presentear com sua presença.
O grilo noturno sai ao sol e desafia as lógicas que o querem noturno e, de preferência, silencioso.
A grama olha curiosa, e volta a pintar sem gana – sem grana – sem gula. A grama não é indigente, diz que sempre esteve ali, mas não cobiça o terreno.
Apenas luta pelo seu direito. Torto é o que veio depois. Um depois que é agora e sempre. Um sempre que a grama luta para que seja nunca.
Chove uma água de banho e deita e rola em seu espaço. Acalora um sol de outono fingindo ser dono do pedaço.
A grama fica com o que é seu e luta. Alguém lhe pisa em cima, alguém cospe nela, alguém joga-lhe um toco de cigarro. A grama fica com o que é seu e luta.
Aparecem todas as solas dos sapatos, todos os sóis, os fins de tardes endiabrados, luas a sós; vieram tórridos banhos de chuva, de orvalhos e de brumas... até de banhos de suor. A grama é vivida, conhece tudo de cor.
Sua memória ancestral chega até ontem, quando também havia pedras em seu caminho e seu caminho era estreito entre as pedras.
Seu intrépido crescimento a faz pensar em novos ares. Surgem no trapejo do lampejo um fugaz desejo: sonhos com outros lares.
Podia ser uma coisa simples. Não é grama de muitos luxos. É só uma grama que as lajes do concreto não deixam ir longe. Mas que insiste. Existe porque insiste.
De tanta existência e insistência surge certeza de sair dali: um ruminante a passos calmos vindo, perdido – faminto – tranquilo – distinto e mais: apreciador de capim.

Rogério Camargo e André Anlub
(19/3/15)

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