Dueto da tarde (CXII)



Dueto da tarde (CXII)

Caminhando por uma rua escura, solitário e com frio.
Voando no céu mais cinza, sem promessas ou destinos.
Boiando num mar de estagnações, deixando-se levar e não chegando.
Alcançando um arco-íris incolor e abandonando para trás as tintas,
Deixa cair a cabeça em vez de erguê-la, deixa escoar a vida em vez de tê-la nas mãos.
Em um espelho oportuno só vê prisão, um “não” sem “sim”, um fim sem ínterim.
Discute com o espelho. Quer inverter a imagem. Quer passagem para o outro lado sem sair deste.
Já fez uma franca amizade com o barqueiro; aquele famoso barqueiro que leva ao “lado de lá”.
Manda-lhe ingresso para jogos, convida-o para cervejadas, quer batizar os filhos dele. O barqueiro não responde.
Mas a jangada está a postos. A maré sempre bravia, mas é só colocar o pé a bordo e vem logo a calmaria.
É querer e não querer. O tédio sem remédio não arreda pé de sua fé: ir sem ir, ficar sem ficar.
Antes da tentação queimou as caixas de remédios com validade vencida (assim seu ato suicida ficaria mais eficaz).
Sobe ao décimo andar com paraquedas nas costas. Só atravessa as avenidas acompanhado por um guarda de trânsito.
Entre ações e não ações veio o contrassenso – para a rua escura havia o poste de luz, para o frio agasalho, para o céu cinza o amanhã e para solidão havia o viver.
Mas de nada adianta adiantar se as pernas travam porque não querem andar, se os olhos cegam porque não querem abrir, se o intermédio do remédio para o tédio não veio intervir. Resta-lhe o martírio que escolheu, o martelo, o espelho e os cacos pelo assoalho.

Rogério Camargo e André Anlub
(2/4/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Um Eu qualquer

Parte XI