Dueto da tarde (CXIV)

Eterno Cartola, em Reencontro emocionado com seu Pai após 40 anos sem se falar. Por: Cartola. <3
Posted by Cifras on Terça, 24 de fevereiro de 2015


Dueto da tarde (CXIV)

A grandeza do mais miudinho olha para o imensurável das grandezas outras e constata que no mundo o rabo abana o cachorro, enquanto que na esquina o cachorro abana o rabo e o vento fresco abana a todos.
Volta para casa e relê a “Tabacaria” do Fernando Pessoa. Identifica-se: Lá vai o Miudinho, sem filosofia.
Gosta dos grandes poetas, mas lê bastante os pequenos também. Só não sabe e nem quer saber distinguir quem é quem.
Trabalho demais. Inconsequência demais. Muito barulho. Liga o rádio em estação nenhuma e escuta.
No som do silencio vem à divergência de vozes – o barulho altivo era inativo e nulo; a nudez do calado falava delicado aos ouvidos.
O som do som nenhum cai-lhe bem. A palavra da palavra nenhuma lhe diz tudo.
Volta para a praça e lê “Invernáculo” de Paulo Leminski. O faz sentir-se moleque com toda sua grandeza miúda.
E de repente não precisa ler mais nada. Só precisa ser lido. Por ele mesmo. Procura suas páginas então, atravessando o branco e subindo no banco em excitação, aceitação e uma recitação interna total de autoconhecimento.
Separa grandeza de miudeza sem muita certeza, senta à mesa, espera a sobremesa e mantém acesa uma esperança.
Faz aliança entre a rosa e a lança e lança seu adágio balsâmico aos quatro cantos, ouvindo os cantos doces, comendo frutas doces e desfrutando o momento.
A grandeza do mais miudinho não tem tamanho. Sem medir e sem pesar, apesar de medir e pesar, ele aprende e guarda para si sua autoridade, aceitando os galardões sem sentir-se um dos grandões. Espalha seu conhecimento e lavra sua humildade como o vento fresco que abana a todos.

Rogério Camargo e André Anlub
(4/4/15)

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