Dueto da tarde (CXIX)



Dueto da tarde (CXIX)

Há o elo entre a inspiração e o sucesso, mas muitos dispensam elos.
O sucesso é um veneno. Há organismos mais resistentes e organismos menos resistentes a venenos.
Há o elo entre o ego e o egoísmo, mas muitos disfarçam elos.
A inspiração é a nuvem. O sucesso é a tempestade.
O ego é a fuligem. O egoísmo é fatuidade.
Há quem tente costurar. A toalha nem sempre é para o banho.
A toada poderá desafinar. O desafino nem sempre é no canto.
A posse esmaga, espreme, suga. A posse quer para si o que é de ninguém.
Faz pose para outrem ao mesmo tempo em que lança a facada nas costas; dá passe à discórdia achando-se dona do além.
Enquanto a coisa bonita escorre pelos dedos, o autor da coisa bonita pega a calculadora e calcula.
Com gula ou sem gula concluiu-se que houve beleza na obra e que se cobra caro por isso; há (in) justiça e há o omisso; há ambição, sacrifício e até viço... Valeu a pena o egoísmo?
Autor não é dono. Autor trabalha “pro-bono”. Autor trabalha pela graça da graça. O resto é o protesto da posse.
É quase um “autor que se dane”, isso, claro, no bom sentido; nele o que deve ter importância é a verve: ler – escrever – ser lido.
Autor é gente. Gente quer sucesso. Sucesso é veneno. Há organismos que resistem muito bem ao veneno. Outros jamais se recuperam.

Rogério Camargo e André Anlub
(9/4/15)

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