Dueto da tarde (CXVIII)



Dueto da tarde (CXVIII)

A prisão do prisioneiro sorria (e ele não via) para ele do lado de fora
É o dentro roçando a morte, mas a “mais-valia” da vida sempre mostrou um tal norte que mesmo ao sul do sul sempre seria.
Mas era preciso abrir a porta. O prisioneiro não abria a porta.
Abria um largo sorriso – abria um conciso abraço – abria o laço, o lenço –, e abria até um tenso espaço... Mas a porta nada.
Para quem sorria o prisioneiro se a prisão lhe sorria e ele não via nem abria a porta que lhe sorria? Para tudo e para nada: tudo é nada na prisão que mantém a porta fechada.
Será que vinha em sua mente que tão torta é a tal porta, ao ponto de ser prepotente e se achar no direito que venha sempre um sujeito e a abra?
Dá dois passos para dentro e no centro do calabouço cala a boca e procura a saída.
Mexe no baú, nos maços de cigarros, vasculha o armário, levanta o colchão, enfia no sanitário sua mão e por fim encontra o seu vácuo... E dentro do vácuo sua história.
Reescreve o que deve sem pegar caneta, prancheta, papel, ideia de céu ou de inferno. Só reescreve o que deve mentalmente.
Deixa para por no papel depois, pois o ritual é notívago: dobrar bem dobrado, colocar dentro do saquinho plástico, enfiar novamente a mão no sanitário e esconder bem escondido.
A prisão tem suas regras. O prisioneiro segue as regras da prisão como um religioso. A única discussão ainda não se deu. Porque há um sorriso do lado de fora. E ele não vê.
Chega o dia em que o sorriso oculta seus dentes dando vez ao manto negro e a foice; foi-se a chance de se fazer visto, brota de imprevisto o inferno em longo alcance... o leva, o devora, ignora sua cela e seus manuscritos.
Quem não sai fica. Quem fica enraíza. Enraizado vai frutificar uma fruta não muito rara de sabor acre, de crosta em aço, quase, de perfume aziago, de aparência repulsiva. E a prisão continuará sorrindo para ele, do lado de fora.

Rogério Camargo e André Anlub
(8/4/15)

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