Dueto da tarde (CXXVII)



Dueto da tarde (CXXVII)

Jornais abertos, livros já lidos, cartas incompletas e o sol nascendo e ferindo. A mesa posta para um só, só um na mesa posta e uma fome muito pouca olha os pratos com desdém.
Os vinténs solitários no cofrinho e o cheirinho de nada que vai além do já sumido.
Uma janela aberta para o muro do vizinho. Para o altíssimo muro do vizinho. Para o interminável muro do vizinho.
No quintal, o cão enterrado junto ao gato parece latir.
A vida inteira dele parecia latir. E rosnar. E correr atrás dos pneus traseiros dos automóveis.
Penso até que ele viveu e ainda vive... Ao contrário de mim.
O contrário de mim sorri tristemente para o contrário dele, depois junta os jornais, tira o pó dos livros, tenta completar as cartas. O sol segue nascendo e ferindo.
Passaram às horas, passaram meus dias, voltei ao começo de tudo já visto.
Empresto ao tédio uma cor que ele não conhece e que talvez lhe faça bem. Empresto à angústia uma música que talvez ela goste de ouvir.
Vou exprimir aos gritos o que o mundo puder ouvir e vou espremer o limão nos meus olhos e sorrir.
Depois talvez use comigo mesmo a cor que emprestei e a música que emprestei.

Rogério Camargo e André Anlub
(18/4/15)

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