Dueto da tarde (CXXX)



Dueto da tarde (CXXX)

Nenhuma dúvida sobre a dúvida nenhuma: é um sonho e a gente acorda.
As paisagens, as pessoas, os amores, os amanhãs, as dores, gostos e contragostos estão ai... E são enigmas.
Levamos as imagens no coração e o coração às imagens, como se ele pudesse animá-las.
São os santos de barro, são as casas de pedras; no alto na nuvem ou no centro da terra, alguém sério atenta irrequieto.
É preciso dominar o que é preciso e nos domina, pensa. Mas enquanto pensa, o que é preciso age com precisão. 
Na exaustão da procura descansa na consequência; na observação da essência se agarra na sua própria construção.
Cobra engolindo a si mesma com a mesma frequência da rejeição. Refeição indigesta. Gesta de sapo ao sol.
Nenhum equívoco no invólucro nada lúcido de uma fidúcia infinda: não há dúvida quando só se vê o que se quer ver.
As costas à frente, a frente deixada para trás. E a certeza da certeza, que não separa separação de afastamento.
Alguns enigmas da vida vão se desfazendo pelo caminho, deixando michas que ao longo do tempo vão se unindo até formar um novo enigma.
O que resta de dúvida é um lago. Nele os peixes da sobrevivência crescem até serem fisgados e acabarem na mesa das satisfações, engordando o comodismo e como dito: Gesta de sapo ao sol.

Rogério Camargo e André Anlub
(21/4/15)

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