Dueto da tarde (CXXXI)

This is a massive wave! Huge respect to Mark Matthews riding this!
Posted by Extreme on Segunda, 20 de abril de 2015


Dueto da tarde (CXXXI)

Pulou de uma desmedida altitude, soltou o grito estilo “Munch”, murchou as flores em volta, voltou a se vitimar no escuro.
Procurou nos bolsos da esperança, mas viu que havia saído sem ela naquela manhã gelada.
Na queda a antiga balada, enquanto o fundo não vinha; tinha faro imaturo para a vida e roía a corda escondido. 
Ferido de si mesmo, não sutura nem cicatriza. Supura e profetiza: isso vai acabar comigo!
Já viu a luz no fundo no poço, mas fechava os olhos na vista; já está à vista o cheque com fundo para pagar sua dívida à vista.
Quer liquidar a fatura. Mas a pressa tem inimigas. A perfeição também. Senta para esperar, mas o banco é tão desconfortável quanto a espera.
Então retorna à queda fazendo piradas piruetas no ar. Ao longe o céu o observa – a cada instante mais longe – a cada momento menor.
Grita enquanto cai. Munch pintaria mais um grito se o escutasse. E qualquer poeta reconheceria o desespero.
Já longe de tudo e todos, até mesmo da luz, chega a lugar nenhum, chega ao fino funil.
Ir é continuar indo. Parar é continuar indo. Não há saída em procurar saída.
Vagando na escuridão de Caravaggio ouve uma voz e o sufrágio: 
- volta logo ao topo, pois Monet quer pintá-lo de novo.
E eu conheço Monet? Devo conhecer Monet... Pelo menos parece que Monet me conhece...
Decide-se a fugir de  Caravaggio, mesmo levando Caravaggio consigo; fugir de Guernica e Picasso, com Guernica e Picasso no coração. Levanta os olhos e dá com um pássaro de Aldemir Martins.

Rogério Camargo e André Anlub
(22/4/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer