Dueto da tarde (CXXXIV)



Dueto da tarde (CXXXIV)

Uma pequena modesta singela flor obscura na beira da estrada.
Jeito jovem de imaculada nua, menina moleca, selvagem delicada, isolada só e nada à toa.
Seu perfume imperceptível soma-se a tudo mais de imperceptível nela.
Faz do externo sentinela e dos olhares alimento. É inércia e movimento, escultura e aquarela.
Quem passa por ela passa pelo nada de uma vida toda e pela intensidade infinita de uma vida toda.
O vento a beija e nada, então ele se vai; o sol a embriaga e nada, então ele se vai; a lua lhe paquera, flerta, beija, embriaga e fica até amanhecer.
A tudo deixa passar estando. Não por acaso escolheu o anonimato. Escondida em si mesma, brilha ao sol de si mesma.
É flor formosa dona do pedaço, ocupando seu espaço de maneira magistral. É flor quieta de quenturas internas, sonhos intensos na saliva do açúcar e do sal.
Não há uma história para contar dela. Mas toda e qualquer história cabe nela, inteira, da maneira que quiser.
É apenas uma em mil, em mim, em nós, mas em todos ela desperta alguma coisa, algum sentimento, e isso ela já deixa de lembrança.
Flor particular, flor genérica; apenas uma e todas elas; insignificante e sustentando o universo. 
Confesso que cria o fascínio, faz o dia ainda mais belo, menos arredio
E se eu tiver que lhe contar, vou lhe contar apenas isto: 
É uma pequena modesta singela flor obscura na beira da estrada, bela e formosa como outra qualquer.

Rogério Camargo e André Anlub
(25/4/15)

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