Dueto da tarde (CXXXVI)



Dueto da tarde (CXXXVI)

Descobri o amigo entre fotografias que já não mais olhava.
Lembrei-me de poesias trocadas, cantigas em duetos e noites em desvelos.
Um olhar distante muito próximo, uma voz distante muito próxima.
Montávamos nos cavalos e embrenhávamos pela mata fechada; sem medo.
A vida era uma presença em linha reta, cheia de curvas fáceis de curvar.
A vida tentava ser sempre bem-comportada, fácil, básica e pé no chão para nós; mas dávamos nosso jeito de voar.
Por vezes trombando com muros. Muros onde esperávamos ar livre e céu aberto. Não sabíamos voar ainda...
Hoje sei que a graça estava no tentar voar, cair em ambientes inóspitos e sairmos ilesos; mas sempre juntos.
É o que estas velhas fotos me mostram e na época eu não podia ver. É, e sempre será, meu melhor amigo, meu parceiro e irmão e isso sempre soube e vi, mesmo não vendo.
Porque a gente vê não vendo. E fica sabendo sem saber. As fotos da vida não mentem.
Também descobri um inimigo entre essas fotografias que já não mais olhava.
Um inimigo implacável, sem perdão, sem negociação, olho por olho e dentre por dente:
O esquecimento. Esqueci do mais importante numa importância, do mais valioso num valor, do mais fundamental num fundamento. Olhando agora eu vejo o que olhando antes não via. 
O amigo que sempre esteve continua estando. Mesmo que eu não saiba onde está.

Rogério Camargo e André Anlub
(27/4/15)

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