Dueto da tarde (CLIV)



Dueto da tarde (CLIV)

Alguma coisa no ar, fora do ar, dava o ar de sua graça de graça.
Estava mais que na hora de orar e arar a (à) terra.
Não só pela fome inevitável. Não só pela vergonha da inércia. Havia tudo mais.
Pés rachados em solos rachados e o sol de rachar na pele estigmas de anos de trabalho árduo.
Suor e cheiro de suor e acidez de suor e manchar de suor. Na roupa e na alma.
Olhos cerrados na serra e na sorte que está na terra e não se enterra na figa que não cai por terra.
Quem erra? O errante, talvez. Quem acerta? Quem traz aberta a ferida submetida e consegue fechá-la.
Alguma coisa na veia, junto ao sangue de guerreiro que corre em disparada sem parada e sem freio.
Está no céu, está na água, está na água que cai do céu. Chega à terra e a terra é isto, convite/desafio ao trabalho.
O galo canta e o cheiro do café adentra o quarto, águas lavam a cara, mão na enxada e beijo na mulher amada... Pé na estrada em mais um dia qualquer.

Rogério Camargo e André Anlub
(15/5/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Um Eu qualquer

Parte XI