Dueto da tarde (CLIX)



Dueto da tarde (CLIX)

Olha novamente a vontade de chegar. Dessa vez é tamanha a pressa que ultrapassa o tempo e agora é obrigada a viver do passado.
Queria tudo, ficou isso. E isso é um compromisso. O ouriço da sua irritação rejeita, mas não dá sumiço no que ali está.
Vai andar, navegar, namorar e voar. Mas nada há além de todos os momentos contemplativos e imaginários no seu sofá de pedra que se funde ao corpo.
Quer movimento. Move o momento na direção do vento, cultiva o lamento cem por cento e enterra-se no afastamento.
O mundo já estava quadrado há tempos e o céu não passava de um segundo teto sem graça; a vertigem tornava-se divertimento e o choro seu copo salgado de água.
Rói as unhas com seus dentes de ouro. Não deixa marcas de ouro nas unhas.
Dói ver pulhas querendo seu couro. Não se queixa se facas os apunhalarem nas ruas.
Faz tatuagens com as cicatrizes. Escreve mensagens com as varizes. É muito direta com as diretrizes.
Tudo se limita ao seu mundo, no raio que o cerca e que o parta, ao longo de dois metros do seu braço, ao longo do espaço que o espreita.
E daí que parte a vontade de chegar. É para aí que volta a vontade de chegar. Pois não há como sair daí.
O traseiro criou raiz no sofá e a mão congelou na xícara de chá; a TV esteve e está fora do ar e de cogitação e qualquer ação sempre fica no “falar”.
Pode olhar eternamente a vontade de chegar: só vontade de chegar não levanta o corpo de ninguém, não descola as pernas de ninguém, não dá vida a quem já morreu.

Rogério Camargo e André Anlub
(20/5/15)

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