Dueto da tarde (CLVII)



Dueto da tarde (CLVII)

Já não procura me entender desde que perdeu até o interesse em procurar.
E se procuro entender porque não procura me entender, é sozinho que faço isto.
Rasgo a farda, o tempo e o verbo, e costuro novamente ao inverso e embaralhado para ver que bicho dá.
É um salto no escuro com direito a cambalhota. Não sou acrobata, não gosto de circo e tenho cãibras. Mas insisto.
Adoro sonhar alto a possibilidade de estarmos juntos. Odeio sonhos baixos. Quero viver novamente nosso voo, lado a lado, caçoando dos abismos.
E o chão me chama. O chão me chama como um ímã atrai os pregos. Faço com eles uma cama de faquir se contrario o chão.
Cada dia ao amanhecer sinto carecer e merecer sua presença; cada dia ao se findar lamento e suplico que o amanhã não seja o mesmo.
Tomo a forma de meu inconformismo e te levo a imagem do desespero. Você está fazendo crochê e fazendo crochê continua.
Não há paisagem que te distraia; não há fetiche a ser feito; não há defeito nem vaias; o ar que te circunda é rarefeito.
E é deste ar que eu quero a força para minhas pipas, meus balões, minhas viagens ao redor do mundo.
Agora eu não procuro me entender, entender você ou entender ninguém. Vou me entreter existindo trasvestido de céu e assistindo abaixo, ao chão, as formigas humanas andando.
Repito: agora. Porque daqui a pouco não sei. Daqui a pouco pode ser que você largue o crochê.

Rogério Camargo e André Anlub
(18/5/15)

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