Dueto da tarde (CLVIII)



Dueto da tarde (CLVIII)

A vontade de chegar regula os passos desde a partida.
Nos pés as feridas aumentam, o corpo é bigorna e a exaustão é lamento.
Respiração arfante, o peso da determinação determinando a velocidade. E as consequências. 
Nas mãos os calos calados na corda da calada escalada.
Os olhos fixos numa estrada que já foi enluarada, na calçada descalça e no anseio da liberdade alcançada.
Talvez chova. Talvez o sol rache. Talvez não ache o caminho. Talvez falte luz nos olhos. Mas vai adiante.
A vontade de chegar regula as asas desde o desfiladeiro passado.
Metro a metro, pedra por pedra, expectativa por expectativa. O que chega nunca é o imaginado, mas o que a experiência obteve não bota fora, os olhos comprovam, as mãos aprovam e os pés renovam juramentos: um, dois; um, dois; um, dois...
Há muito que andar e andar é muito. O fogo pode estar quase morto, mas a chama nunca morre.
O desejo escorre pelas mãos junto ao suor, e em sol maior se queima e canta uma canção que o silêncio escuta respeitoso e ajuda a criar clima. E este é o clima: 
O desejo da chegada regula os passos, mas há tempos não mais regula o homem.

Rogério Camargo e André Anlub
(19/5/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Um Eu qualquer

Parte XI