Dueto da tarde (CLX)



Dueto da tarde (CLX)

Muito lentamente, como convém ao esquecimento, as coisas foram se acomodando.
Um abraço, uma conversa e um afago – esvaeciam a cada manhã acordada.
Éramos muitos e deveríamos ser nenhum naquela lembrança ruim.
Em algum lugar o Querubim canta forte a última estrofe da música que nunca quis ter fim.
Então o coração trabalha para trabalhar menos, esforça-se para se esforçar menos. 
Abre-se em duas mil pequenas estradas para assim correr melhor o fluxo dos sentimentos.
Muito lentamente, como se a velocidade não existisse, a seiva do não estar mais ocupa os espaços deixados pelo que sempre esteve.
A grama cresce aos poucos e árvores dão seus frutos. É como a água do rio que segue em direção ao mar, e evapora e torna-se chuva e torna-se rio e novamente segue indo, indo, indo...
Talvez deságue no mar da Liberdade. Talvez faça foz no oceano do Alívio. Por enquanto é isto. Amanhã é amanhã.
Na mão a nostalgia já se faz papel, enquanto na mente está soldada como soldado na guarita blindada do seu quartel.
Vigilância tensa. Também ela precisa passar com as águas, precisa lavar-se das mágoas, precisa passar a régua.
Não é filtrar o que se pensa, é pensar no que se filtra; pois coisa nenhuma vale a pena se a balança pesar plena a um lado ou outro.
Muito lentamente também o peso das coisas pesadas pensadas tem lugar na canoa. E no boa tarde que o sol da tarde morrendo deseja a todos.
E muito, muito lentamente, como convém às lembranças, algumas coisas se vão da memória, enquanto outras tatuam-se no inesquecível.

Rogério Camargo e André Anlub
(22/5/15) 

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