Dueto da tarde (CLXI)



Dueto da tarde (CLXI)

Há voos nas coisas boas que duram pouco, e há o pouso nas ruins que duram muito.
Asas abertas podem ser apenas a súplica de um céu que fugiu.
Visão rasa para o que pode acabar bem, e olhos de Lince para o adverso do mundo.
Há pássaros que preferem caminhar. E outros que não mereceriam ser pássaros. Enquanto isso os ares esperam.
Homens caminham em círculos buscando respostas para perguntas mesquinhas enquanto outros acham respostas para futuras questões.
Primeiro as respostas, depois as questões. Responder ou não responder, eis a questão. Nenhum príncipe shakespeareano responde.
O sinal ficou verde e o tempo está bom; os braços abertos aos abraços e a candura e ternura dão as mãos.
Há voos para além do sinal aberto. Para aquém do sinal aberto, há ânsias.
Asas fechadas podem indicar descanso de quem muito as usa.
Olhos fechados podem indicar o sonho do voo, o voo no sonho, estar ali e não estar.
Agora homens caminham em linhas retas, com água, alimento, disposição; homens caminham em estradas asfaltadas, sozinhos ou não. Mas seria esta a direção correta?
O que sabe a direção correta da direção correta? Ter certeza é não ter certeza. Ninguém vai sabendo para o que não sabe.
De um lado as perguntas mesquinhas, do outro as respostas para o futuro hipotético; de um lado o esperto e sua vidinha, do outro o ignorante tentando olhar por debaixo da saia dos anjos.
Mais do mesmo é sempre mais do mesmo. Se há pássaros que não voam, o chão aceita. O chão é feito de aceitar.
O chão, o voo e o céu não são falhos e sabem esperar. O céu entende que por mais alto que se voe no fim ninguém pode alcançá-lo.
O infinito não cabe na palma da mão. Na palma da mão há um infinito de angústias. Mas o sinal ficou verde...

Rogério Camargo e André Anlub
(23/5/15) 

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer