Dueto da tarde (CLXIII)



Dueto da tarde (CLXIII)

Deu a volta ao mundo, olhou bem pelas frestas, lacunas, arestas, entrelinhas, montanhas e esquinas e não achou.
Deu a volta ao infinito – assim parecia – e quando olhou bem estava no mesmo lugar.
Deu-se então a escrever em pergaminhos todos os seus sonhos vividos e suas lembranças presumidas.
Escrevia, queimava seus escritos, jogava as cinzas no ribeiro aos fundos de casa e deitava para sonhar os resultados.
Ao sonhar com resultados – as consequências – dava-se então novamente a criação – a causa – e outra volta ao mundo.
Viciado no círculo vicioso, era um hamster em sua roda, testando os limites da sua resistência. 
Diz-se então sã, e todos são... Assim sãos os pensamentos como o cão correndo atrás do rabo e o lago que todo ano congela... Parecem recorrentes, e são.
Recorre, corre, concorre e o tempo transcorre em seu desfavor: já são onze horas, não jantou ainda, não entendeu nada ainda.
O mundo veio à sua porta cobrar à forra. Quer dar uma volta a sua volta, quer vê-la torta e tonta, girando até sabe-se lá quando.
Deu espaço para o mundo, agora o mundo toma-lhe o espaço e nem ao menos ri da piada. Dá uma espiada ao seu redor e só vê muito espaço no espaço eterno da Via-Láctea e seus adjacências.
Já são onze e meia. Não jantou ainda. Coloca uma porção de mundo em seu prato, outra porção mundo em seu copo, ajeita a almofada mundana em sua cadeira e senta.
Fecha os olhos e no escuro dá algumas voltas. Junta as cinzas de seus escritos, separa lembranças e sonhos e depois os mistura no infinito. Tudo são fulgente e ambíguo – enfermidade e saúde – mundo e sorriso.
Faz desenhos estranhos com o dedo na poeira em cima da mesa. Fica olhando para eles longamente. Já é meia-noite. Vai dormir sem jantar.

Rogério Camargo e André Anlub
(25/5/15)

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