Dueto da tarde (CLXVI)



Dueto da tarde (CLXVI)

Andorinha solitária brincando como muitas na ventania.
Ventos vêm e vão, se cruzam e ajudam nos seus balanços, na sua dança.
Contra a corrente, a favor da corrente, ela desacorrenta-se e vai.
Andorinha solitária ganhou bastante companhia... Agora brinca com pardais na imaginação:
Pardais não alcançam suas alturas nem aturam os ventos que para ela são afagos.
Por causa de seus voos audazes, extensos e altos, andorinhas têm poucos afetos, aparentemente. 
Mas não ligam aparências. Nem desaparências: se parecem desaparecer em euforia é porque os olhos dos pardais estão distantes.
De vez em quando descem ao mundo dos simples mortais, tem sua prole e descansam um pouco. Observam outras aves e batem o ponto como mensageiras do verão.
Ela se lembra disso e de tudo mais que está lá embaixo esperando que desça. Mas está tão bom o combate com o vento!
Nessa bela manhã tocou junto ao vento as mãos de um Deus. Pegou e levou para longas distâncias suas prosas poéticas.
Bela manhã: cinzenta, ventosa, céu carrancudo, solidão. Para ela está perfeito. E não porque brigou com a vida. Não, não porque brigou com a vida.
Ela pede mais, quer outras provocações. Não quer pousar em um fio de luz e olhar com olhar vago. Quer outro rasgo de vento, outro turbilhão de tempo... Mais altitude e desafio.
São suas prosas poéticas, ela carrega para as imensidões, convidando pardais que não a alcançam, convidando terrestres tantos que não a alcançam.
Andorinha solitária brincando de viver na ventania e carregando a presença de todos em seus pensamentos.
Carregando e descarregando, recolhendo e soltando, contra o vento e a favor do vento, como tudo que intensamente está e intensamente passa.

Rogério Camargo e André Anlub
(31/5/15)

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