Dueto da tarde (CLXV)



Dueto da tarde (CLXV)

Um dia depois de um dia que não precisaria ter acontecido.
Um dia para entender que qualquer dia pode acontecer.
Hoje cabisbaixo e desgostoso não consegue se olhar no espelho.
E o espelho era o mesmo ontem, vai continuar sendo o mesmo amanhã.
Brigou com sua vida, tentou entender e não entendeu, ficou de mal com o mundo e em um surto desfaleceu.
O mundo não foi juntá-lo. Ninguém do mundo foi juntá-lo. Teve que se reerguer sozinho.
Organizou o que restou de suas forças, ergueu a cabeça e foi encarar seu juízo no espelho.
Não era um juízo final, nunca será. Também não era o perdão, a remissão, a condenação afastada. Era apenas olhar. E ele olhava.
No inicio não gostou do que viu, mas logo veio um discreto sorriso. Ficou corado... Não se sabe se por vergonha ou a força que voltou.
Do chão ninguém passa. E só os fracos fecham os olhos ou viram as costas para o espelho.
Um dia depois de um dia que mais parecia uma noite. O sol e seus olhos voltam a brilhar.
Reconhece. Já viu o sol antes. Já foi o sol antes. Mesmo que também seja noite quando é noite.
Contentamento de ter perdido uma luta, mas ganhou o duelo e aprendeu uma lição. Só que novas lutas, lições, espelhos e dias difíceis virão.
Amanhã é amanhã. Hoje é hoje. O espelho também diz isso, mas é preciso ouvir o que ele diz, não o que ele dirá.
Pensou em quebrar o espelho para evitar o conflito; pensou em consertar a si mesmo para evitar o conflito.
Pensou que só com o espelho intacto pode consertar o conflito. Então sorriu – para si, para ele e para o mundo – e foi preparar um café.

Rogério Camargo e André Anlub
(30/5/15)

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