Dueto da tarde (CXLII)



Dueto da tarde (CXLII)

As lembranças se atropelam. Até existem sinaleiras e faixas de segurança. Mas elas não respeitam. 
Andam cabreiras pelas ruelas das raízes do cabelo, sentem o cheiro da fumaça, do perfume e do odor e o doce aroma do shampoo de aveia.
Trânsito difícil, pesado. Muita impaciência dos buzinantes. E as memórias com carga urgente para entregar se enervam.
Há lembranças folgadas, com a mão espalmada acima da trombeta aguardando o sinal verde; mas também existem as leves e discretas, que andam, trabalham e passeiam de bicicleta.
Há lembranças flanando em roupas leves de verão. Há lembranças encasacadas e tossindo. Há lembranças com radinho de pilha no ouvido acompanhando o jogo. Há lembranças que nem vieram, com receio do trânsito caótico.
E lá no canto, escondido pela sombra do lóbulo da orelha, atrás do brinco e da tatuagem de borboleta, há na memória o seu olhar castanho claro, penetrante, meio de lado que ficou congelado desde a nossa separação.
Para ele não há guarda de trânsito, não há Código Nacional de Trânsito, não há nada além do meu mau trânsito por uma dor que apunhala.
É a buzina mais alta no sinal que não abre da carga extremamente pesada que se abraça ao achaque.
O ruído angustiante de uma freada brusca. O som assustador de uma batida violenta. O arrepio de um grito desesperado. As lembranças se atropelam. E uma (a sua) me atropela. 
Estendido no chão, beijando o chão que não me beija, peço/imploro a única bênção que me socorre entre tudo que me ocorre: amnésia!

Rogério Camargo e André Anlub
(3/5/15)

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