Dueto da tarde (CXLIX)

Há 415 anos (17 de fevereiro 1600), um frade dominicano chamado Giordano Bruno foi queimado na fogueira por heresia....
Posted by Climatologia Geográfica on Domingo, 10 de maio de 2015


Dueto da tarde (CXLIX)

Vejo-te diante das flores e não sei mais quem é quem. E nem importa.
Mesmo que importasse, não importaria. Mesmo que soubesse, não saberia: há sempre algo além do quem é quem.
Este amor teu me faz menino; me nina, me guia e orienta o meu olhar à tua formosura e para o que há de formoso no mundo.
Vejo as flores diante de ti e não contenho a onda de ternura. Nela surfa meu coração encantado. 
Certo que às vezes revivendo o passado crio um presente paralelo, um mundo ainda mais belo caso escolhesse por outro caminho. Seria então um egocêntrico ainda mais feliz.
Tu ris disso, às vezes. E às vezes gargalhas disso. Mas agora não. Agora me olhas como se quisesses adivinhar o que adivinho.
Tu choras comigo, quase sempre, para me fazer companhia. Sei que de nenhuma melancolia é composto teu ser.
Eu também choro comigo. Mas é por não ver o que sei estar lá, contigo e com as flores que são tu o tempo todo em meu jardim de angústias.
Quero viver tempos de dança e de bajulo com a vida, pois tu já és banhista, sambista, alquimista que larga a terra e se embrenha no oceano sem engano e sem economia.
Quero e fico querendo. O que é teu é teu e não posso avançar sobre. Pratico o que me permito praticar: praticamente, o reconhecimento da nossa distância.
Percebo-te como uma bela ilha que fito com os olhos, é fato em meus sonhos, mas, pela distância, impossibilita o meu nado.
Não me afogo porque nem tento. Atento para o impulso e tomo pulso de mim: Sei onde estamos quando quero estar onde não posso estar.
És ilha que amo cercada por tudo que amo – céu e mar; fazes da deselegância da minha total entrega o teu porto aos barcos outros, ao barco meu e a quem desejar.
Se isto não é suficiente, nada mais é suficiente. É quando a insuficiência senta a meu lado para olhar-te diante das flores e ambos vemos.

Rogério Camargo e André Anlub
(10/5/15)

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